Acre sabor.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009 às 18:47
Imagina uma chuva. Imaginou? Ótimo. Agora ela parou e saiu o sol. Aquele céu azul, sem uma nuvem se quer. Aquele dia lindo. Mas o que acontece quando você olha para o chão? Você ainda se lembra da chuva. É inevitável. Você olha as poças d'agua e a rua molhada. ALI você tem uma prova de que choveu.

É o acre sabor que faz a vida interessante. É o contraste entre o que é bom e o que me faz querer continuar vivo para continuar sentindo o que eu sinto. É um prazer amargo ver a chuva caindo, mas saber que logo mais vou ver o sol. Me sinto como uma criança numa viagem de carro. Ela sabe que vai chegar ao seu destino final, mas não sabe quando.

Eu também não sei quando vou ver o sol. Mas sei que vou. E é assim que eu espero. E quando ele aparece, gosto de sair na rua e olhar pro chão e me lembrar da chuva. Por que sem ela, eu não saberia como é bom rever o sol. E então, com o sol no céu, e eu sempre odiando o calor, volto a querer a chuva.

É sempre o acre sabor. É um amor platônico. Nunca me satisfaço. Quando tenho o sol, quero a chuva. Quando tenho um, quero o outro. É sempre o acre saber. Quero o doce, quando tenho o azedo. Quero um pouco do azedo por que doce demais me enjoa.

E eu sempre quero algo que eu sei que não posso ter, mas não me importo. Me dá um prazer imenso esse absurdo de sonhar com o impossível. Mas as vezes o impossível me cai de mãos beijadas. E então eu, que posso ser tão prático, perco toda minha objetividade. Fico sem saber o que quero. Se queria o impossível, continuo querendo ele, afinal, se consegui, virou possível.

Não sei direito o que quero. Quero o sol, mas quero a chuva. Quero as poças d'agua no chão, o frio do inverno e um pouco de calor. Quero ficar sozinho, quero ter alguém. Se tenho alguém, não quero ninguém.

Quer saber de uma coisa? Eu só tenho uma única certeza. Meu favorito é o acre sabor.

Felicidade estranha

às 18:29
É estranho. Chove, faz frio. Ao meu redor, para cada lado que eu olhe, vejo um conflito entre pessoas. Vejo novamente o medo das enchentes. Vejo a frieza de algumas pessoas. Mentiras. Falsidades. Até frustrações.

Vejo futilidade. Pessoas que se vendem, e pior, por tão pouco - se é pra se vender, que se valorize, afinal. O ônibus está lotado. Continua a chover. Levantar cedo todos os dias. Dormir tarde. Dormir pouco.

Resolver os meus problemas. Resolver problemas alheios. Ter que saber a hora certa de estender a mão. Saber a hora de mandar a merda.

Sinto o vento frio cortando meu rosto. É final do mês, não tenho mais um puto centavo no meu bolso. Sempre existe a pressão para ser feito algo de útil da minha vida. A pressão para tirar boas notas, não ser triste, falar quando quero ficar quieto.

Falta-me tempo para escrever. E como eu PRECISO escrever. Não sei fazer outra coisa. Eu não funciono sem isso. Ficar sem escrever, que é o que tem ocorrido ultimamente, me deixa irritado. Tenho TODOS os motivos para estar triste. Todos os motivos para estar irritado.

Hoje, me vejo no direito de mandar quem eu quiser a merda. Xingar todo mundo e mandar até quem eu mais amo para a puta que pariu. Me vejo no direito de chorar, entrar em depressão, ficar irritado, gritar, pisar forte no chão, socar o travesseiro, quebrar um vaso, bater a porta da geladeira.

Mas, apesar de tudo, me sinto extremamente bem, muito feliz....

Eu olho para você e fico em paz.

Insônia.

às 18:15
Duas pessoas. Elas nunca haviam se conhecido antes. Nunca haviam se olhado, se falado, se tocado. E por uma incrível obra do destino - se é que destino existe - elas finalmente se encontram. Continuam sem trocar uma palavra. Mas o olhar já fala por si só. Elas passam a se suportar. Viram cumplices de um crime que ambas cometeram. E então um sorriso desponta na boca das duas.

Elas mataram a morte. Vão viver eternamente. Embora sejam pessoas jovens, tinham o medo de morrer. E quis o destino - novamente, ele existe? - que elas se encontrassem finalmente, naquele lugar. Alias, o local onde estavam não tinha nada de especial. Não era um campo florido num belo dia de sol, nem uma praia deserta com águas cristalinas.

Era uma cidade, como qualquer outra. Um ponto de ônibus de uma avenida pouco movimentada, para ser mais exato.

Elas param, ainda sorrindo, uma de frente para a outra. Então uma delas dá de ombros e segue em frente. A outra chama a atenção e segue. As duas pessoas novamente se olham, agora com medo. Será que fizeram algo de errado? E o que será daqui pra frente?

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Trinta anos se passaram. As duas pessoas continuam vivas. Cada uma seguiu seu caminho, sua vida. Uma se casou, teve filhos. A outra, também. Ambas são felizes, ao menos em aparência. Não há uma única noite em que elas não deitem a cabeça no travesseiro e fiquem pensando, será que a morte ainda vai vir?

É possível, afinal, matar a morte? Ou ela ainda espreita, esperando o momento certo para matá-las.

E então, as duas pessoas infinitas em sua existência. Elas enganaram a morte. Ah, se elas soubessem. Achavam que não haveria mais o medo da morte. Mas agora elas tem medo da sua vingança.

Será como ver o sol nascer.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009 às 14:32
É como ver o sol nascer. Em um momento eu estou triste, melancólico, achando que o fim do mundo está próximo. Que o fim do MEU mundo está próximo. É como se todos ao meu redor, aqueles que eu gosto e realmente confio estivessem afastados.

Quando eu estou mal, pra baixo, eles me consolam e, honestamente, acho isso uma merda. Sempre ODIEI a pena. Detesto quando sentem pena ou dó de mim. Odeio até mesmo quando eu sinto isso por mim ou por outra pessoa.

Quando eu estou mal, não preciso de consolo. Preciso de um tapa na cara. Preciso acordar. Quero que me falem diretamente, sem medir palavras, o quão porre, chato e deprimido eu estou sendo. E quero que gritem e briguem comigo por que estou deixando os outros no mesmo estado.

É aquele meu buraco negro que aumenta e suga a energia ao meu redor, deixando todos num estado de inércia emotiva, sem vontade de ir para a frente, mas também, não mal o suficiente para regredir.

Eu quero que discutam comigo. Quando eu gritar, gritem mais alto. Quando eu for mal-educado, me mandem a merda. Quando eu for arrogante, seja mais ainda. Se eu me fechar dentro de uma concha, para assim me proteger, POR FAVOR, insistam, me perturbem, perguntem até cansar, mas façam com que eu me canse antes e me desarme.

Me dêem um chute, um tapa, um soco na boca do estômago. Me peguem pelos ombros e me empurrem contra a parede e falem alguma ameaça. TENHAM UMA FORTE REAÇÃO. Por que é exatamente isso que eu preciso. Eu estarei mal, preciso que façam isso por mim.

E então, eu vou acordar de um pesadelo. Vou voltar pra minha realidade mundana. Vou olhar ao redor e pensar que talvez aquilo que está acontecendo não seja o fim do mundo. E vai ser muito melhor do que ver uma luz no fim do túnel. Eu não vou estar num túnel, tendo que olhar só para frente, com uma única luz de esperança.

Eu vou estar numa manhã bela e ensolarada. Vou olhar ao meu redor e vou ver luz. Vou olhar para a esquerda e ver luz. A direita, luz. A frente, luz...

E vai ser bom, terá de ser assim...

Então, quando eu estiver mal, faça o que eu pedi. E, para mim, será como ver o sol nascer.

Em Companhia da Solidão

domingo, 20 de setembro de 2009 às 11:49
As vezes é tudo muito imediato, rápido demais. Quando eu percebo, já aconteceu. E a sensação de vazio é a única coisa que sobre. Chega a ser irônico até, ter como companhia, a solidão. E as vezes parece que ela é a única que me suporta.

Eu já passei por essa situação inúmeras vezes e eu sei como é uma merda se sentir assim. Você olha ao redor. Você vê pessoas se divertindo. Você está cercado de amigos. Mas você está sozinho. Parece que a única coisa que te deixaria feliz naquele instante seria fugir.. ou gritar. Tão alto que o próprio silêncio da sua alma seria quebrado.

Mas eu não sei fazer isso. Não sei ou não quero. E tudo volta ao ponto de partida. As pessoas, a alegria e eu com a minha inquietáção. As vezes ela é tão palpável que seria possível cortá-la com uma tesoura. Mas parece que a gente se acostuma. Ou então, pelo menos eu, vou criando meios de me enganar e fazer de conta que essa solidão está comigo por que EU mesmo quis.

Não tem ninguém bom o suficiente para mim. Ele é ignorante. Ele é preconceituoso. Ele é atrasado com a vida. É tudo desculpa, uma máscara, um véu que eu uso para cobrir os maiores desejos, deixando eles quietos dentro de mim. Mas sempre com medo de que eles venham a tona. Esse desejo de TER alguém. De um dia poder olhar nos olhos DELE e dizer "você é meu e eu sou seu". Mas, e o medo? O medo de tentar chegar próximo disso com alguém e ser rejeitado? Não.

Por isso as desculpas. Assim eu me mantenho seguro por mais tempo. No fundo, sou um covarde. Tenho aversão ao contato, as pessoas, por que tenho medo de ela nunca me corresponderem. E então eu escolho a solidão. Ela que nunca me decepcionou e sempre esteve do meu lado, quando eu mais quis. Eu posso olhar nos olhos dela e dizer que ela é minha. Mas a solidão não me satisfaz por completo. Por isso quero gritar e fugir. Vou fazer isso sempre com a solidão.

Mas e se um dia, até mesmo a solidão me abandonar?

Eu dormia com a TV ligada.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009 às 11:50
É tão estranho quando eu chego num lugar e vejo a alegria se dissipar de imediato. É como se houvesse, em mim, um buraco negro que sugasse toda a felicidade ao meu redor. E é o medo de realmente conseguir fazer isso e o fato de eu ser inseguro que faz com que isso realmente aconteça.
Quando ando sozinho pela rua a noite, quando eu dou um passo após o outro eu vejo as luzes dos postes se apagarem a medida que eu me aproximo e então eu tenho certeza de que nada ao meu redor pode ser claro. Se nem mesmo a luz pode existir perto de mim, quem dirá uma ideia clara. No início essa escuridão me perturbava. Eu olhava ao meu redor e só via o preto, o breu, o nada que me cercava e então, me encolhia de medo. A noite, só dormia com a TV ligada, precisava de luz vinda de algum lugar, por medo de eu mesmo ser sugado para dentro dessa minha própria escuridão.
Mas hoje eu aprendi a conviver com isso, eu sei que não vou ser sugado por algo que me faz ser quem eu sou. Aprendi a ser feliz assim e aprendi, acima de tudo a ver a luz e a felicidade a uma boa distancia. A uma distancia em que eu não possa sugar ela e uma distancia segura, de modo que, repentinamente, ela não vire a mesa e se transforme em magoa, alimentando o meu buraco negro de mais e mais escuridão.
E então eu aprendi a ser solitário. Confiar nas pessoas é algo que não posso fazer mais. Cada vez que isso acontece, alguém se fere, dando mais liberdade ao meu vazio que vai consumindo a vida dos outros também. E assim eu aprendi a não esperar por mais ninguém. Não espero por uma mão estendida, nem por um ombro amigo.
Quando ainda me sinto criança, com medo do escuro - e me sinto assim mais do que admito - eu saio de perto de todos e, novamente na minha cama, eu deito e espero a luz do dia, pra que assim ela alimente a minha escuridão e eu não me vá. E faço isso sempre com a TV ligada.

Marginal, com orgulho!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009 às 09:56
Padrão. Padrões. Muitos deles. Comportamento, beleza, funcionáio, aluno, carro, vida. Que tédio. E todos dizem que devemos seguir os padrões. E então temos aqui uma das maiores contradições do ser humano. Como que nos dizem para sermos originais e únicos e, ao mesmo tempo, para seguirmos as regras e os padrões?
Quem foi o filho da puta que disse que para sermos bonitos, devemos ter o uma barriga tanquinho, dentes perfeitamente emparelhados, olhos expressivos, um rosto sem marcas, cabelos sedosos, um corpo sem pêlos? Quem disse que para termos uma família exemplar, devemos ter pai, mãe, filhos e um bom relacionamento entre eles?
E o que acontece com o resto? Com os outros? Com quem não se sente a vontade em ser assim. O que acontece com aquele que reza dia após dia para que algo diferente ocorra em sua vida, ou então que simplesmente pega uma mochila e foge de casa, pois acha que sentar e esperar é uma perda de tempo.
E daí se o seu cabelo é diferente? Ele pode ser arrepiado, rosa, raspado, como você preferir. E daí se vocÊ está acima do peso? Existem inúmeras pessoas gordas, fofas e gordinhas que são charmosas e bonitas. E saúdáveis. Lembrem-se que magreza pode ser um sintôma de anorexia.
Mas aí vem eles - a sociedade - e te rotula. Você é gay, emo, gordo, nerd, feio, rebelde, doente, desleixado, alcolatra, drogado....

O mais interessante das pessoas é que olhamos para os defeitos dos outros por que temos muito mais medo de enfrentar os nossos próprios. Temos medo de olhar para dentro de nós e pensar "Merda, eu sou assim? E não posso mudar? O que as pessoas vão achar?"

Ah, o que as pessoas vão achar. Que se fodam as pessoas. Se cada um cuidasse da sua própria vida, o mundo seria um lugar muito menos poluido de maus pensamentos e más intenções. Sejamos livres. Não deveriamos traçar uma linha a ser seguida por todas. Por que no momento em que traçamos ela, jogamos a margem dela qualquer pessoa que não a siga. Temos os marginais. Pessoas a margem da sociedade.

Mas olhe ao seu redor, eles... nós estamos em todas as partes, existimos, temos vida, sentimentos, assim como todos vocês. Somos todos mais parecidos do que vocês podem achar. E eu, particularmente, não tenho vergonha em ser diferente, pensar diferente, ver o mundo diferente. Não tenho medo de falar o que penso por talvez ser mal interpretado. Eu tenho orgulho disso. Sou marginal sim. Com orgulho.