Insônia.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009 às 18:15
Duas pessoas. Elas nunca haviam se conhecido antes. Nunca haviam se olhado, se falado, se tocado. E por uma incrível obra do destino - se é que destino existe - elas finalmente se encontram. Continuam sem trocar uma palavra. Mas o olhar já fala por si só. Elas passam a se suportar. Viram cumplices de um crime que ambas cometeram. E então um sorriso desponta na boca das duas.

Elas mataram a morte. Vão viver eternamente. Embora sejam pessoas jovens, tinham o medo de morrer. E quis o destino - novamente, ele existe? - que elas se encontrassem finalmente, naquele lugar. Alias, o local onde estavam não tinha nada de especial. Não era um campo florido num belo dia de sol, nem uma praia deserta com águas cristalinas.

Era uma cidade, como qualquer outra. Um ponto de ônibus de uma avenida pouco movimentada, para ser mais exato.

Elas param, ainda sorrindo, uma de frente para a outra. Então uma delas dá de ombros e segue em frente. A outra chama a atenção e segue. As duas pessoas novamente se olham, agora com medo. Será que fizeram algo de errado? E o que será daqui pra frente?

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Trinta anos se passaram. As duas pessoas continuam vivas. Cada uma seguiu seu caminho, sua vida. Uma se casou, teve filhos. A outra, também. Ambas são felizes, ao menos em aparência. Não há uma única noite em que elas não deitem a cabeça no travesseiro e fiquem pensando, será que a morte ainda vai vir?

É possível, afinal, matar a morte? Ou ela ainda espreita, esperando o momento certo para matá-las.

E então, as duas pessoas infinitas em sua existência. Elas enganaram a morte. Ah, se elas soubessem. Achavam que não haveria mais o medo da morte. Mas agora elas tem medo da sua vingança.