Para o Sr. Destino

quarta-feira, 14 de outubro de 2009 às 17:39
Tem dias que eu acordo me sentindo um lixo. Ou meu cabelo está ruim, ou meus dentes estão amarelados, ou mesmo depois de um banho eu ainda me sinto sujo.

A roupa que eu quero usar não está limpa. Só tem cuecas rasgadas na gaveta. Minhas meias estão furadas.

Me falta dinheiro para pegar o ônibus. Meus pais não me emprestam o carro. Meu mau humor contamina as pessoas ao meu redor.

Tiro nota baixa na prova, esqueço de entregar o texto que vália a nota pra porra da média.

Falo muito mais palavrões do que costumo falar naturalmente.

Mas daí eu penso que todos temos dias assim. Aquele dia em que você, mesmo acabando de acordar, percebe que vai ser um dia ruim. E tudo o que você mais deseja é simplesmente ficar deitado, bem quietinho. Você se agarra a vã esperança de que o mundo simplesmente esqueça da sua existencia e que você consiga passar despercebido pelas próximas horas.

Mas, paradoxalmente, é bem NESSES dias em que o destino te chuta para fora da cama e resolve tirar o dia para apontar e rir de ti. E o que você faz? Você pode não fazer nada, pode sentar e chorar, ou pode guardar esse dia na memória.

Eu guardo o dia na memória.

No dia seguinte o cabelo me ama, meus dentes são brancos novamente e eu estou tão limpo que parece que consigo ver a sujeira com medo de tocar em mim.

Minha roupa está limpa e passada me esperando no guarda-roupas. A meia está linda e maravilhosamente branca. A cueca é a minha favorita.

Descubro uma nota de 50 reais esquecida num bolso de uma jaqueta qualquer. Meus pais liberam o carro.

Descubro que o trabalho que eu me esqueci de entrar foi anulado e que a prova em que eu fui mal terá segunda chamada.

Meus amigos se aproximam de mim, todos me abraçam e me beijam.

Opa, deixe-me ver isso direito. É impressão minha ou até o Sol está sorrindo para mim, em meio a todo aquele grande e imenso azul celeste?

E o que fazer nesses dias? Gritar para todos como a vida é perfeita? Não, se ela fosse perfeita, não teria graça. Basta lembrar do dia anterior. Sim, aquele que eu guardei na memória.

Agora sim. Agora posso me lembrar do dia anterior. Posso me lembrar do garoto podre que eu estava sendo. Posso comparar ele com o "eu" de hoje. E que diferença!

E então, ao invés de gritar para todo mundo ouvir, eu curto silenciosamente a minha maior vitória. Como uma criança que delicia-se com uma bala que conseguiu roubar do jarro de doces sem que ninguém percebesse, eu me divirto em saber de uma única coisa....

Senho destino, essa é para você. Hoje sou eu quem aponta e ri de ti.

1 Responses to Para o Sr. Destino

  1. Ah, quando eu to nesses dias eu nao seio de casa, fico trancado no meu quarto e no maximo vou caminhar na praia, sozinho.

    Tenho vontade de não olhar pra cara de ninguem, nem falar com ninguem, e tenho ate pena de quem se aventura travar contato comigo... ehheheh

    Eu bem que tento evitar, mas tem gente que insiste em perguntar: "o que você tem?"... eles não enetendem, eu não posso dizer o que eu tenho, por que NEM MESMO EU SEI!