Ritual

sexta-feira, 16 de abril de 2010 às 17:43
É um instante efêmero. Tudo se passa ali, em um piscar de olhos, em uma piscada da luz. Andando, conversando ou dançando. Não que eu esteja prestando atenção. E, na verdade, jurei para mim mesmo que eu não iria me repetir. Mas novamente estou eu olhando para você. Um novo você.

Não sei o que causa tudo isso. Será a bebida que me sobe a cabeça e me deixa meio tonto (a mesma bebida que vai fazer eu me aproximar de ti), ou será que é o efeito criado pela fumaça de gelo seco e as poucas luzes que piscam incessantemente? Não sei exatamente, mas você é perfeito. Os movimentos, a dança, a troca de olhares. Tudo me convida a você.

E o mais interessante é saber que no dia seguinte, provavelmente nem iremos nos falar. Talvez eu nem me lembre do seu nome. Quem sabe eu acorde ao seu lado e pense 'quem diabos é essa pessoa?' E então tudo acaba. Era só mais uma noite. Não faço - fazemos - isso por que temos esperança de algo maior.

Na verdade é uma caçada desenfreada. Ali ganha o que estiver mais desesperado por um pouco de atenção. Aquele que estiver mais carente. Afinal, estamos num ponto muito baixo para que os elogios de um estranho nos levante a nossa estima. São horas que se passam desde o planejamento de onde ir, passando pela roupa, o banho, até como chegar e entrar no lugar.

Somos extremamente fixados no ritual. E o pior é que nem sempre ele dá certo. Mas e daí? Você não me quer? Há quem queira, e talvez esse alguém seja esse seu amigo dançando ao seu lado. Ironia das ironias, você não quer, mas tem que aguentar a noite toda uma pessoa estranha.

E lá pelas 5 horas da manhã é só mais um adeus-beijos-eu-te-ligo-nem-morto-nunca-mais-vou-te-ver-semana-que-vem-tem-mais.

E nada restou...

segunda-feira, 5 de abril de 2010 às 12:31
Depois que você partiu, fiquei sem chão, sem alma, sem coração, sem vida. Fiquei sem uma direção para caminhar ou um objetivo a cumprir. De repente, me vi perdido num mar de incertezas. E o mundo parou para mim. A cena bem que podia estar num vídeo de música: eu sozinho em meio a uma multidão de pessoas que passavam por mim sem ao menos imaginar o que estava acontecendo comigo.

Os dias iam se arrastando. A minha cama que antes estava sempre arrumada, de uma hora para a outra, ficou com os lençóis amarrotados, com os travesseiros tortos e molhados de tantas lágrimas que eu derramei neles. E, mesmo sem ser inverno, a casa inteira parece gelada. A sala está gelada, o quarto está gelado. Minha cama está gelada. Tudo isso por que você não está lá.

Eu caminho perdido nos meus próprios pensamentos, vagando de um lado para o outro. A minha atenção está sempre no que não existe mais em minha vida: como você sorria, como andava, o seu jeito de falar. Trabalho, estudo, compromissos... tudo parece uma distração para o que eu realmente quero fazer. Eu quero e só penso em ti.

Os dias passam e a saudade aumenta ao passo que as lembranças diminuem. Você ainda está comigo, mas seu rosto não é mais tão visível, tão nítido. E eu me perco numa névoa densa de confusão. Não estou pronto para te esquecer, e ainda não estou pronto para seguir em frente.

Eu estou nú em pêlo. Vulnerável até o último fio de cabelo de minha cabeça. Não me restou mais nada. Estou novamente eu com minha vida. Você se foi. E por favor... meu amor, já que você foi embora, não se dê ao trabalho de voltar para mim.

O dilema do copo

domingo, 4 de abril de 2010 às 17:17
Eu nunca gostei de algo feito pela metade. Na verdade, eu acho frustrante. É aquela velha história do copo que está até a metade com água. Daí se pergunta: o copo está meio cheio ou meio vazio? E daí eu pergunto, uma meia verdade é mais verdade ou mais mentira?

Não gosto de amizades que são pela metade, onde só podemos confiar até um ponto no nosso amigo. Gosto quando eles se entregam por completo para nós e, assim, fazem com que eu me entregue completamente também. Por que uma meia amizade é também uma meia desconfiança.

E os meio honrados, meio dignos, meio honesto? Serão eles homens de verdade ou apenas carcaças cheias do mais puro descaso que a humanidade pode presenciar. E não há também meio altruísmo ou meio egoísmo. Há o completo, a devoção. E um não exclui o outro, pois todo altruísmo é um pouco egoísta.

E o amor.... Quem ama pela metade, ama? Ou é apenas uma paixão? É possível amar até um ponto e dali não passar? Não. Por isso eu digo que eu gosto dos extremos.

Comigo é sempre assim: vai ou racha, oito ou oitenta. Prefiro uma decepção completa do que uma meia conquista. Eu não sei medir termos. Ou eu gosto, ou não gosto. E quero que seja assim comigo também. Me amem ou me odeiem. Detesto a indiferença. Aliás, ela nada mais é do que o meio dos meios.

Quem está no meio do caminho, não chegou aonde está indo mas está longe demais para voltar ao ponto de partida. E o meio da encruzilhada é uma dúvida a ser resolvida. Quem fica no meio, não chega a lugar nenhum.

Meios limites não são limites, mesmo. Meio poder é uma total ausência dele. É figuração.

E por isso, se me perguntam, o copo está meio cheio ou meio vazio, eu respondo:
- O meu? Ele estava totalmente cheio. Quem foi o infeliz que bebeu dele?